IBERÊ CAMARGO: UM TRÁGICO NOS TRÓPICOS” CHEGA AO CCBB BH
Ciclistas (Cyclist),1989
Carretel Azul (Blue Spool), 1981
As idiotas, 1991
Tudo te é falso e inútil, 1993

Exposição apresenta retrospectiva dos trabalhos do artista, com mais de 130 obras, incluindo pinturas, desenhos, gravuras e matrizes. Em cartaz de 27 de janeiro a 28 de março, com entrada gratuita

 

 

Belo Horizonte começa 2016 dando as boas-vindas ao trabalho do artista Iberê Camargo. Reconhecida, em 2014, pela Associação Paulista de Críticos de Arte como a melhor exposição retrospectiva, “Iberê Camargo: um trágico nos trópicos” traz 134 obras, sendo 49 pinturas, 40 desenhos, 32 gravuras e 10 matrizes especialmente selecionados pelo curador, professor e crítico de arte Luiz Camillo Osorio. A mostra, que já passou pelo CCBB-SP, MAM Rio e CCBB-Brasilia, fica em exibição no Centro Cultural Banco do Brasil – no Circuito Liberdade, de 27 de janeiro a 28 de março, com entrada gratuita. O CCBB BH fica na Praça da Liberdade, 450 – Funcionários.

 

Em “Iberê Camargo: um trágico nos trópicos” os trabalhos do artista se dividem em dois eixos: o primeiro, entre as décadas de 1950 e 1970, destaca o período em que a poética de Iberê ganha maturidade e apreende característica própria após seu período de formação. O segundo, já no final da década de 1980 e início dos anos 1990, é marcada por sua dimensão trágica. “É a fase crepuscular de Iberê Camargo”, explica Camillo Osorio. De acordo com o curador, nesse contexto, o público terá a oportunidade de ver o processo inteiro de uma obra acontecer. “Iberê é um dos maiores artistas da segunda metade do século XX; um pintor que brigou pela qualidade das tintas e, consequentemente, pela valorização das obras. Foi uma vida inteira dedicada à arte”.

 

A exposição apresenta desde obras da fase Natureza Morta, iniciada na década de 1950 – período em que Iberê retornou da Europa para o Rio de Janeiro depois de estudar com mestres como Carlos Alberto Petrucci, De Chirico e André Lhote, até as grandes e trágicas telas de sua última fase, nos anos 1990, que incluem as séries Ciclistas, As Idiotas e Tudo Te é Falso e Inútil. “O núcleo da exposição é o processo de amadurecimento da trajetória de Iberê, dos Carretéis até as telas dos anos 1980, quando a figura humana começa a reaparecer”, adianta Camillo Osorio.  

 

A diversidade artística do pintor, que passa por pinturas, desenhos, guaches e gravuras, não revela nenhuma preferência em especial, mas um processo natural de sua carreira. “Iberê era pintor, que se estendia pelo desenho, onde ia se soltando e ganhando ritmo. O desenho era a usina de suas ideias pictóricas. Já o trabalho com a gravura era quase um sacerdócio. Nas telas, o público confere o trabalho sempre trágico de Iberê que é mais atípico no Brasil. A exposição retrata seu olhar sombrio, noturno e solitário”, revela o curador.

 

O coordenador de acervo da Fundação Iberê Camargo, Eduardo Haesbaert, observa que o artista sempre pensou em como fazer o quadro, começando primeiro um estudo e depois passando este estudo para as telas. “Era racional, mas no momento de pintar, muito impactante”. O superintendente cultural da Fundação, com sede em Porto Alegre, Fábio Coutinho, reforça que “Iberê Camargo: um trágico nos trópicos é uma das maiores retrospectivas já realizadas com a obra do artista” . 

 

 

 

O ARTISTA E O FRASISTA

 

“Tenho sempre presente que a renovação é uma condição de vida. Nunca me satisfaz o que faço. Ainda sou um homem a caminho.”

 

De excepcional habilidade com o pincel e extraordinária intimidade com as palavras, Iberê Camargo construiu uma trajetória em que pintura e literatura quase se confundem. Os quadros que pintou e as frases que cunhou têm a mesma marca: o abandono, a dor, o desespero. O crítico Augusto Massi afirmou que Iberê é um caso raro de um grande pintor que é também um notável escritor. No livro de contos A Gaveta dos Guardados, escrito entre 1993 e 1994, Iberê evidencia que conhecia tão bem o colorido dramático das palavras, quanto o movimento do pincel.

 

“O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.” 

 

Filho de ferroviários, praticamente cresceu desenhando. Nascido aos 18 de novembro de 1914, e aos quatro anos já produzia os primeiros rabiscos. Sua trajetória enigmática encerrou-se aos 79 anos, quando, no limite da enfermidade, pintou “Solidão” seu último quadro. Morreu no dia 8 de agosto de 1994, vítima de câncer em Porto Alegre.

 

“Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão. No fundo, um quadro para mim é um gesto, um último gesto.”

 

As sucessivas transferências do pai Adelino fizeram-no peregrinar na juventude entre Restinga Seca, Jaguari, Canela e Santa Maria, onde, aos 13 anos, então morando com a avó, começou seu aprendizado de pintura, na Escola de Artes e Ofícios. Sua iniciação com a arte pedagógica, no entanto, foi interrompida abruptamente. Um desentendimento com um professor marista que ensinava Letras abreviou seu estágio na primeira escola de artes que freqüentou.

 

“As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias de minha infância. Nascem da minha saga, da vida que dói. Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria. Toda a grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.” 

 

Iberê viria repetir a rebeldia contra os mestres anos depois no Rio de Janeiro. Aconselhado por Portinari, cuja obra não admirava, ingressou na Escola de Belas Artes, mas, inconformado com os padrões rígidos da academia, ficou pouco a vontade para prosseguir, encerrando rapidamente suacarreira universitária que apenas começava. Depois da breve experiência na Escola de Belas Artes, tornou-se aluno de Guignard, um dos mestres que influenciou sua pintura.

 

“No modernismo, ou você se parecia com Segall ou com Portinari. Eram dois pólos e você tinha que estar entre um ou outro.”

 

Antes de se transferir para o Rio, conheceu Maria, em Porto Alegre, com quem casou em 1939. Maria Coussirat, estudante de pintura graduada do Instituto de Belas Artes e professora de desenho da escola primária, foi sua companheira por toda a vida. Sua paixão pela pintura foi crescendo. Em companhia de Vasco Prado, desenhava tipos de rua, sem jamais abandonar sua origem interiorana.

 

“A memória é a gaveta dos guardados, repito para sublinhar. O clima de meus quadros vem da solidão da campanha, do campo, onde fui guri e adolescente. Na velhice perde-se a nitidez da visão e se aguça a do espírito.”

            

Em 1947, já no Rio de Janeiro, a chance de conhecer o Velho Continente veio com o disputadíssimo Prêmio de Viagem à Europa, com o óleo “Lapa”, destaque no Salão de Arte Moderna, atualmente no Museu Nacional de Belas Artes. Na Europa viu de uma só vez o que conhecia apenas através de escassas informações. Tornou-se aluno de De Chirico em Roma e Lhote em Paris. Viajou por vários países da Europa para ver arte. Regressando ao Brasil, nos fins de novembro de 1950, recomeçou a pintar, ainda atordoado pelo que tinha visto e ouvido.

 

“Continuo no mesmo rumo, pintando as minhas ladeiras, essas mesmas ladeiras que subo com tanta fadiga. E naturalmente continuo fiel ao meu estilo de arte, construindo o quadro sem recorrer a elementos formais, transformando a natureza em ritmos e sensações coloridas.”

 

Mestre da pintura moderna no Brasil, Iberê recolheu recortes da infância para retratar sua obra. Em 1958, uma hérnia de disco, provocada pela suspensão de um quadro no cavalete, obrigou-o a trabalhar quase que exclusivamente no ateliê. Seja por essa razão ou por motivos inconscientes, seus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. O céu das paisagens tornou-se azul-escuro, negro, dando a sua obra um conteúdo de drama. Surge então a produção em que Iberê retrata carretéis sobre a mesa e no espaço.

 

“Os carretéis são reminiscências da infância. São combates dos pica-paus e dos maragatos que primo Nande e eu travávamos no pátio. Eles estão impregnados de lembranças. Pelas estruturas de carretéis cheguei ao que se chama, no dicionário da pintura, arte abstrata.”

 

Depois de participar de exposições internacionais em Nova York e Tóquio e de ganhar o prêmio de gravura na Bienal do México e de melhor pintor nacional na VI Bienal de São Paulo, Iberê integra várias exposições coletivas e individuais no Brasil e exterior. Em 1982, Iberê e Maria voltam a residir em Porto Alegre, mas mantêm o ateliê do Rio de Janeiro, dividindo seu tempo entre as duas cidades. Os ciclistas dos anos 80 são personagens incorporados à obra iberiana, quando o artista retorna ao Rio Grande do Sul. 

 

"Voltei para o Sul porque a saudade estava grande demais. À medida que envelhecemos, parece que a infância fica mais perto. Sentimos vontade de reencontrar os primeiros amigos e tudo que foi nosso."

 

Mudando-se para o bairro Cidade Baixa, próximo ao Parque da Redenção, Iberê iniciou um íntimo convívio com o parque e com seus freqüentadores, sobretudo com os ciclistas. Velozes e muitas vezes sem metas, a não ser pedalar, personificavam um pouco do sentimento do próprio artista. Os ciclistas de Iberê Camargo refletem muito do próprio pintor: um ser em busca de suas verdades e raízes. Marcam os personagens mórbidos que povoam o imaginário do artista no final de sua vida.

 

“Sou um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza.”

 

A morte de Iberê não encerrou um ciclo; deu início a outro: o do culto à obra e à memória de um dos artistas mais brilhantes e instigantes do Brasil. Através dos anos, críticos e artistas de todas as escolas tentam desvendar os mistérios e a profundidade de sua criação. 

 

“Ainda sou um homem a caminho.”

 

 

SOBRE O ARTISTA

Artista de rigor e sensibilidade únicos, Iberê Camargo é um dos grandes nomes da arte brasileira do século XX. Autor de uma obra extensa, que inclui pinturas, desenhos, guaches e gravuras, Iberê Camargo nasceu em Restinga Seca, interior do Rio Grande do Sul, Brasil, em 1914.

 

Em 1927, iniciou seu aprendizado em pintura na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria. Em 1936, mudou- se para Porto Alegre, onde conheceu Maria Coussirat Camargo. E foi com tela e tintas dela, então estudante do Instituto de Belas Artes, que Iberê pintou seu primeiro quadro, às margens do Riacho, na Cidade Baixa – assim começou o namoro do casal e assim “começou o pintor”. Em 1939, Iberê e Maria se casaram. Em 1942, ano de sua primeira exposição, o artista e sua esposa mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde viveram por 40 anos.

 

Admirador e amigo de artistas brasileiros como Goeldi e Guignard, em 1948 viajou para a Europa (através de um Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, conquistado com sua obra Lapa, de 1947) em busca de aprimoramento técnico. Durante sua estada, visitou museus, realizou cópias dos grandes mestres da pintura e estudou gravura e pintura com Giorgio De Chirico, Carlo Alberto Petrucci, Leoni Augusto Rosa, Antonio Achille e André Lhote.

 

De volta ao Brasil, em 1950, Iberê conquistou inúmeros prêmios e participou de diversas exposições internacionais, tais como Bienal de São Paulo, Bienal de Arte Hispano-Americana em Madri, Bienal de Veneza, Bienal de Gravuras em Tóquio, entre outras exposições importantes. Foi no final dos anos 1950 que, devido a uma hérnia de disco que o obrigou a pintar no interior de seu ateliê, o artista desenvolveu um dos temas mais recorrentes em sua pintura: os Carretéis. São estes brinquedos de sua infância que o levaram, mais tarde, à abstração, e que estiveram presentes em sua obra até a fase final.

 

Na década de 1980, retomou a figuração. Mas, ao longo de toda sua produção, nunca se filiou a correntes ou movimentos. Em 1982, retornou a Porto Alegre, onde produziu duas de suas séries mais conhecidas: as Idiotas e os Ciclistas.

 

Iberê Camargo faleceu em agosto de 1994, aos 79 anos, deixando um grande acervo de mais de 7 mil obras, entre desenhos, gravuras e pinturas. Grande parte desta produção foi deixada a Maria, sua esposa e companheira inseparável, cuja coleção compõe hoje o acervo da Fundação Iberê Camargo.

 

 

 

ACERVO DIGITAL 

Além das obras em exposição no CCBB BH, o público pode acessar o Acervo Digital da Fundação Iberê Camargo (www.iberecamargo.org.br/acervodigital).  São 4 mil obras disponibilizadas em hotsite, com possibilidade de pesquisas cruzadas entre imagens e informações. O acervo digital traz ainda centenas de documentos, como catálogos, recortes de jornais e revistas, correspondências, cadernos de notas e fotografias, armazenados pela esposa de Iberê, Maria Coussirat Camargo. Das quatro mil obras, três mil estão em alta resolução, acompanhadas de fichas técnicas, históricos e informações relacionadas, revelando um repertório nunca visto antes em exposições. “Estamos acompanhando uma tendência seguida pelos principais museus do mundo”, diz o superintendente da Fundação Iberê Camargo, Fábio Coutinho. 

 

 

CURIOSIDADES

No hotsite, é possível conferir preciosidades, como um cartão de Natal que Iberê recebeu de Jorge Amado e Zélia Gattai e a troca de correspondência dele com o também artista Alberto da Veiga Guignard. Em uma das cartas, Guignard sugere ao gaúcho que conheça Jurujuba, na cidade de Niterói (RJ). A resposta de Iberê veio na forma de uma gravura da casa da “tia Maria”, que ele fez posteriormente, quando esteve em Jurujuba.

 

Outras curiosidades do acervo são um abaixo-assinado liderado por Iberê e enviado ao presidente das Organizações Globo na época, Roberto Marinho, criticando o fato de o jornal O Globo dar cotações “bom”, “razoável”, “sofrível”, às exposições de arte.   “Os conceitos estéticos em todos os períodos históricos férteis são, quase sempre, conflitantes. A eleição de um único ponto de vista para a aferição da diversificada produção artística nacional é, por conseguinte, extremamente perigosa como elemento cultural e injusta como prática social ...”, diz o texto assinado por Iberê.

 

Outro documento é um bem-humorado cartão postal com a foto de uma cabrita, enviado da Suíça por Mário Carneiro, fotógrafo do Cinema Novo e amigo de Iberê, em 1953. Na correspondência, Carneiro escreveu: “Meu caro professor, talvez ainda hoje te escreva longamente. O que não impede que te mande este instantâneo da tua cabrita, que veio comigo pastar nestas alturas. Um abraço, Mário.”

 

SERVIÇO

EXPOSIÇÃO “IBERÊ CAMARGO – UM TRÁGICO NOS TRÓPICOS”

Curadoria: Luiz Camillo Osorio | 134 obras entre pinturas, desenhos, gravuras e matrizes

Data: 27 de janeiro a 28 de março de 2016

Local: CCBB BH – Praça da Liberdade, 450, Funcionários

Horários de visitação: De quarta a segunda, das 9h às 21h

ENTRADA GRATUITA

www.iberecamargo.org.br

 

Vídeos sobre o Iberê Camargo

Iberê em processos: https://www.youtube.com/watch?v=wB_v0iiuBHs

MAGMA: https://www.youtube.com/watch?v=wsL0FiwLHKY
Pintura, pintura: https://www.youtube.com/watch?v=C1lRyNfjSl0

 

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